RIO — Da confortável
casa onde mora com os pais e os dois irmãos, na Barra, na Zona Oeste, até Duque
de Caxias, na Baixada Fluminense, são mais de 40 quilômetros de distância,
percurso que Stéphannie repete pelo menos três vezes por semana. O destino é sempre
o mesmo, o Jardim Gramacho, onde até dois anos atrás funcionava o maior aterro
de lixo da América Latina.
Apesar do fechamento,
o lugar ainda recebe detritos de forma clandestina, o mau cheiro permanece
fortíssimo e dezenas de famílias moram ali em condições miseráveis. Quando
Stéphannie chega, crianças surgem de todos os lados, pedindo a atenção da Tia
Teka, como elas a apelidaram. Assim que sai do carro, tasca um beijo na
bochecha de uma menina enquanto dois garotos logo se penduram em suas pernas. Ela
abraça uma adolescente, pergunta onde está a mãe dela, e garotas puxam sua
blusa para contar um “segredo”. Ela joga o cabelo para trás, abaixa para
escutar e dá uma gargalhada, logo seguida por um grito.
— Neymar! — chama
Stéphannie Oliveira, quando vê o garoto de 4 anos, que tem um machucado na
cabeça — Estão colocando remédio direitinho em você? Cadê o seu sapato? Eu já
falei pra você não ficar com o pé nessa lama!
Stéphannie convive com
a pobreza do antigo lixão há três anos e meio, quando ainda precisava da ajuda
de um aparelho de GPS para não se perder no caminho. Conhece cada criança pelo
nome, entra e sai da casa dos moradores sem cerimônia. Aos 23 anos, chegou a
Gramacho convidada por um casal que já realizava trabalho voluntário no lugar.
Com os dois, levou doações recolhidas por missionários. Hoje, vai sozinha, com
ou sem donativos, e passa o dia todo por lá.
Por conta da beleza,
do visual hippie chic e da altura (1,81 metro), ela não passa
despercebida. Nunca. E não demorou muito para que descobrissem sobre a sua
experiência como modelo internacional, carreira que deixou de lado pelos
projetos sociais com os quais se envolveu. As meninas agora não saem do seu pé
atrás de dicas de como caminhar na passarela ou ingressar no glamoroso mundo da
moda. Por outro lado, nem todos sabem (ainda) de seu pai famoso, o jogador
tetracampeão mundial Bebeto.
— Nunca comentei sobre
o meu pai, e isso não foi passaporte para facilitar a minha entrada aqui nem em
qualquer outro lugar — garante Stéphannie, durante uma tarde no Jardim Gramacho
acompanhada pela Revista O GLOBO. — Estive na África, na Índia e passei um mês
e meio na Amazônia. Essas experiências me transformaram, e minha visão da vida
mudou completamente.
Proximidade com os
moradores
Deitada numa cama no
casebre de um único cômodo onde mora com o marido, Tia Helô esboça um sorriso
toda vez que a filha de Bebeto vai visitá-la. Aos 58 anos, ela tem o lado
esquerdo do corpo paralisado por conta de um AVC que sofreu anos atrás. Desde
2012, Stéphannie limpa e cuida das escaras que tem pelo corpo.
— A Teka é uma menina
que admiro demais. Ela chega aqui e nem liga pra sujeira. Abraça e conversa com
todo mundo sem nenhum preconceito — conta outra moradora, Mara Lúcia de
Almeida, 39 anos e 12 filhos com idades entre 2 e 23. — É por isso que deixo
meus filhos com ela no fim de semana sem preocupação.
Apesar de quase sempre
chegar sozinha, Stéphannie costuma sair de Gramacho com quatro ou cinco
crianças em seu carro de sete lugares. De lá, vai para casa e prepara uma programação
que pode incluir sessões de cinema, passeios no shopping, partidas de futebol e
banhos de piscina.
— Quando pisei aqui
pela primeira vez, fiquei impressionada ao ver de perto como as pessoas
sobreviviam. Só quero tentar proporcionar alguns momentos de alegria para eles
— diz.
Do endereço que foi
cenário dos filmes “Estamira”, de Marcos Prado, e “Lixo extraordinário”, sobre
o trabalho de Vik Muniz com catadores e indicado ao Oscar de Melhor
Documentário em 2011, ela levou Amora, mas esta nunca mais voltou para o lixão.
A vira-lata, então recém-nascida, estava doente e foi batizada originalmente de
Amor, porque todo mundo jurava que se tratava de um macho. Agora, com novo
nome, a cadela convive bem com os cachorros de raça dos Oliveira, como o lulu da
Pomerânia Bradock, e adora correr atrás de uma bola no campo de futebol da
família.
A mãe de Stéphannie,
Denise Oliveira, garante que todos são bem-vindos e que adora a casa cheia.
Prefere a filha por perto do que quando ela sai à noite ou resolve viajar para
um local remoto.
No ano passado, a
ex-modelo teve que bater o pé para ficar três meses fazendo trabalho voluntário
na África. Os pais não gostaram muito da ideia, mas ela foi.
— É claro que fiquei
apavorada. Ela estava no auge da carreira e quis largar tudo para ir para um
lugar onde não conhecia ninguém. Nós sempre respeitamos as escolhas dos nossos
filhos, mas sofri demais longe dela. Às vezes, acho que minha filha não tem
noção de perigo — acredita a mãe.
Logo depois de visitar
o continente africano, Stéphannie recebeu um novo convite de viagem, dessa vez
via comentários no Instagram, para ir à Amazônia (aliás, ela é ligadíssima em
redes sociais). Enfrentou quase 36 horas de travessia de barco até chegar a uma
tribo indígena. Adorou a experiência, mas durante todo o trajeto não teve como
ligar para casa. A mãe, preocupadíssima, acionou todo mundo que conhecia e que
não conhecia para descobrir o paradeiro da filha.
— Eles sabem que sou
destemida, mas burra eu não sou. Jamais faria alguma coisa pra chateá-los. Sei
que eles investiram muito na minha educação e que sonham que eu ainda faça uma
faculdade — diz.
A filha do meio de
Bebeto já quis cursar Medicina e está em dúvida entre Cinema e Enfermagem. A
matrícula na New York Film Academy, uma das mais renomadas do mundo, está
feita, mas ela não decidiu quando e se vai mesmo. Alfabetizada também em
espanhol e inglês, ela gosta é de escrever poemas, dedilhar músicas no seu
violão e cantar.
Talento como cantora
No mês passado, aliás,
Stéphannie fez os familiares caírem em prantos quando entoou “Como é grande o
meu amor por você” na festa de 80 anos da avó paterna. Mesmo rouca e sem
esconder o nervosismo diante da plateia, não conseguiu parar. Cantou pelo menos
uma dúzia de músicas, entre um sucesso de Anitta, outro de Naldo, o “Lepo lepo”
do Psirico, e um pagode (“Esse é o ritmo que não dá pra ficar de fora, né?
Afinal, sou filha de jogador de futebol”, brinca).
— Queria muito que
Stéphannie fosse cantora. Não sou uma pessoa que sonha com frequência, mas
quando sonho ela sempre aparece em cima de um palco — revela Bebeto.
O pai conta que
percebeu o talento vocal da filha quando ela ainda era criança e que sempre foi
um grande incentivador:
— Você sabia que ela
teve aulas com o professor da Ivete Sangalo e que ele me falou que ela tinha o
dom da música? Minha filha é muito afinada mesmo. Uma pena que ela não tenha
investido nisso.
Apesar de já ter sido
sondada para gravar um CD, ela só cantarola mesmo entre parentes e amigos.
Falante e expansiva, jura que fica envergonhada quando precisa se apresentar em
público. As poesias que escreve — em inglês, inclusive —, só mostra para os
mais próximos.
Por conta da carreira
do pai, Stéphannie e os irmãos cresceram em diferentes casas e países. Quando
Bebeto ergueu a taça do tetra, em 1994, ela tinha 2 anos, mas não foi em sua
homenagem que o jogador simulou embalar um bebê. A comemoração do gol contra a
Holanda foi para Mattheus, o caçula e hoje atleta do Flamengo, que tinha
acabado de nascer. Além dos dois, Bebeto e Denise são pais do advogado Roberto,
de 24 anos.
Pouco antes da
conquista do campeonato mundial pelo Brasil, assim que Stéphannie completou 1
ano, a família foi morar na Espanha. O pai jogou no La Coruña e, em 1996,
voltou para uma curta temporada no Flamengo. Depois, regressaram para a Europa
(dessa vez o time era o espanhol Sevilla) e, passado quase um ano, já estavam
de mala e cuia em Salvador, onde ele jogou no Vitória. Até o meio de 1999
ficaram no Rio, com Bebeto no Botafogo, e nos dois anos seguintes passaram por
países em três continentes diferentes: México, Japão e Arábia Saudita. Com o
retorno definitivo para o Brasil, Stéphannie começou a trabalhar como modelo.
— Eu era muito magra,
tinha perna fina e me achava feia. Brinco até dizendo que eu era só cabelo,
joelho e boca. Mas meu pai tinha um amigo que insistia que eu tinha que
modelar, e fui para Milão — lembra.
Na capital italiana da
moda, ela encontrou abrigo na casa do Tio Leo, o também jogador tetracampeão e
técnico Leonardo. Aos 14 anos, não conseguia se equilibrar em cima de saltos
altos, muito menos sabia o que era ângulo bom ou ruim numa foto. Mesmo com a
falta de experiência, participou de vários castings. E partiu para uma
temporada em Xangai, na China, onde dividiu um apartamento com outras quatro
modelos durante quatro meses. No ano seguinte, entre Paris e Milão, participou
de campanhas publicitárias para Fila e Garnier e de desfiles para a grife Oscar
De La Renta.
Cansada da vida lá
fora, Stéphannie resolveu voltar para a casa dos pais, no Rio. Foi quando sua
agência sugeriu que clareasse o cabelo e que investisse em fotos de biquíni e
de lingerie. Frequentadora de uma igreja evangélica na época, ela começou a
fazer ensaios mais sensuais. Na ocasião, o pai admitiu morrer de ciúmes da
filha e deixou clara sua insatisfação com o rumo das coisas. À filha, sobraram
críticas.
— As pessoas
comentavam: “Se ela é cristã, como pode fazer essas fotos?” Mas não fiz e não
faria nada vulgar — garante ela, que cresceu num ambiente predominantemente
masculino, ao lado dos irmãos e de 18 primos. — Por isso, acho que sou tão
moleca. Amo andar de skate e jogar totó, sabia?
No Jardim Gramacho,
ela senta no chão, deixa as meninas fazerem penteados no seu cabelo e maquiarem
seu rosto. As roupas são as mesmas que usa quando sai para algum bar da Barra
com as amigas, entre elas a atriz Bruna Marquezine. Ela garante não ligar para
grifes. Os brincos e as pulseiras, bijuterias que tem aos montes, às vezes
ficam com as crianças. Elas retribuem com beijos e flores descobertas no meio
das montanhas de lixo.
Convidado por
Stéphannie, o surfista de ondas grandes Pedro Scooby já foi ao local algumas
vezes — Ter a coragem que
ela teve, de abandonar tudo e entrar de cabeça num mundo completamente
esquecido e abandonado pela sociedade, mostra o quão especial e diferenciada
ela é. É de encher os olhos de lágrimas e o coração de esperança — exalta o
marido da atriz Luana Piovani.
Das visitas constantes
ao lugar nasceu a ideia da Awana Brasil, marca de bolsas de papel reciclado
feitas pelas próprias moradoras de Gramacho. Junto com outras duas sócias, ela
ajuda a coordenar oficinas para um pequeno grupo de mulheres que aprendem a
confeccionar as peças. A ideia é que os produtos sejam vendidos em breve, pela
internet e também em multimarcas. Os preços devem variar entre R$ 80 e R$ 400,
e parte da renda será revertida para a própria comunidade. A garota propaganda
será, claro, Stéphannie.
— Fico feliz em saber
disso, porque acho que ela não deveria ter abandonado a carreira. É uma menina
de múltiplos talentos — afirma Sérgio Mattos, diretor da agência 40 Graus
Models, da qual ela já fez parte. — Claro que é legal ajudar as pessoas, mas
ela não pode esquecer da própria vida profissional. Ainda mais agora que está
mais madura e virou um mulherão.
A filha de Bebeto
agradece os elogios, mas diz que não pensa em retomar de vez a vida de modelo.
— Pelo menos não por
enquanto. Nada tem me dado mais alegria do que ajudar as pessoas — conta, na
véspera de visitar pela primeira vez um presídio feminino, em Bangu.
FONTE: O GLOBO
Nota do NEFROADVEN:
Jesus "comenta" as atividades desta moça: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e
destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e
vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver...
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um
destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” Mateus 25:35-36;40.
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